Quatro em cada mil recém-nascidos de grávidas com o vírus HIV, no Amazonas, serão infectados, segundo projeção do ‘Boletim Epidemiológico HIV/AIDS’ do Ministério da Saúde (MS). O Estado ocupa o 3º lugar no ranking nacional de taxa de detecção de aids em gestantes, superior à média do País, de 2,5. O Estado também é o quarto em percentual de crianças soropositivas menores de 5 anos – cinco a cada 100 mil têm o vírus.
No mês de luta contra a aids, o relatório sobre os 30 anos da presença do vírus HIV no Brasil traz um alerta à saúde das gestantes e crianças do Amazonas. Nos últimos dez anos, Amapá e Amazonas estão entre os cinco primeiros lugares do ranking de detecção do HIV em crianças menores de cinco anos.
Ao todo, sete unidades da federação estão acima da média nacional. Rio Grande do Sul (9,3), Santa Catarina ( 5,5) e Amazonas (4,1), o Estado do Rio de Janeiro (3,0), Mato Grosso (2,9), Paraná (2,6) e Roraima (2,6) completam a lista. Desses Estados, o Rio Grande do Sul, Amazonas, Mato Grosso e Roraima apresentam, segundo o MS, tendência significativa de aumento nas taxas de detecção nos últimos dez anos.
Para a pediatra infectologista da Coordenação Estadual de DST/Aids e Hepatites Virais, da Fundação de Medicina Tropical (FDT), Solange Andrade, o maior cuidado para evitar a transmissão do vírus da mãe para o filho deve ser tomado durante o parto das gestantes positivas. Atualmente, 230 bebês expostos ao vírus recebem acompanhamento pela FDT. Segundo ela, todos os anos, pelo menos 150 crianças menores de 5 anos, são diagnosticados com o HIV.
Filhos de mãe portadoras do vírus são acompanhados por pelo menos até 2 anos de idade, até que se confirme que a criança seja ou não soropositiva.
A infectologista afirma que a Coordenação Estadual de DST/Aids reconhece o aumento dos casos de transmissão vertical, que é quando a mãe durante a gestação, parto ou amamentação transmite o vírus ao bebê.
Perigo no parto
Após a detecção da presença do vírus, a pediatra explica que é realizada a administração, durante toda a gravidez, de medicamentos com o objetivo de zerar a carga viral e dificultar a transmissão vertical. Mas, segundo ela, o momento mais importante no processo de prevenção é durante o parto da criança, que deve ser cesariana para evitar o contato com o sangue e fluidos da mãe.
“A gente sabe que as maternidades têm muita demanda, mas é preciso que elas deem uma atenção maior ao problema. Fizemos reuniões com os obstetras para sensibilizá-los a estarem atentos a essa conduta”, disse.
A presidente da Sociedade Amazonense de Ginecologia e Obstetrícia (Assago), Hilka Espírito Santo, admite que os obstetras, sobretudo do sistema público de saúde, muitas vezes não priorizam o atendimento e a administração do medicamento retroviral das mães soropositivas.
Segundo ela, em decorrência da superlotação das maternidades e da quantidade insuficiente de obstetras nos plantões, os médicos acabam optando por atender outras emergências.
“Cada maternidade tem, em média, dois centros cirúrgicos. Na hora de fazer a cesárea da mãe soropositiva, chega uma mulher sangrando e tem um outro procedimento na sala ao lado. Aí temos que escolher o mais urgente. O ideal é que o obstetra não tivesse que escolher, tínhamos que ter condição de atender a todos, mas faltam profissionais, leitos e estrutura”, disse.
Amamentação
As chances da mãe transmitir o HIV durante a gestação, segundo a infectologista Solange Andrade, é de 25% no Brasil. Ao amamentar, esse risco de infecção da criança sobe para 39%.
Ela afirma que, atualmente, um fato preocupa na detecção de crianças positivas menores de 5 anos. Casos de mães que não estavam infectadas durante a gravidez, nem no momento do parto e transmitiram HIV aos filhos durante a amamentação estão sendo estudados pela FDT.
Segundo a infectologista, a transmissão ocorre porque as mães saudáveis, após o parto, mantêm a vida sexual ativa, sem a devida proteção e acabam se contaminando e transmitindo o HIV durante a lactação dos filhos.
“Nós pedimos às mães que mesmo após a conclusão do pré-natal, continuem fazendo os exames de rotina e, principalmente, se previnam usando preservativo”, alertou.
O segundo maior problema, conforme ela, é a quantidade de mães que não realizam corretamente o pré-natal.
O número de mulheres grávidas soropositivas subiu de, dois casos no início da década de 1980, para 314 no ano passado, segundo o Ministério da Saúde. Somente neste ano, pelo menos 83 gestantes já foram diagnosticadas.
“É muito baixa essa taxa, nem metade das grávidas fazem o procedimento do pré-natal com o número de consultas adequadas. Algumas descobrem que são soropositivas, inclusive, durante os testes realizados no pré-natal”, disse a infectologista, que também coordenadora do laboratório de Infectologia Infantil da FDT.
Solange explica que, após o nascimento, o bebê precisa tomar um xarope com propriedades antiviral durante 28 dias. Somando os três procedimentos, é possível, de acordo com ela, reduzir em quase 80% a possibilidade da contaminação da criança.
Alternativas de prevenção utilizadas na África, onde a probabilidade de uma gestante positiva passar o vírus para o filho é de 50%, já estão sendo adotadas pelo Amazonas. O uso de uma nova medicação, chamada nevirapina, reduz as chances de mães que não descobriram o HIV durante a gravidez e não tenha feito corretamente o pré-natal, contamine a criança. “É possível usar juntamente com o AZT (azidotimidina) a nevirapina e evitar em alguns casos a transmissão”, afirmou.
O principal desafio para Solange é fazer com que as mães façam corretamente o pré-natal e consigam realizar o tratamento profilático durante o parto. Ela afirma que, quando esse estágio é vencido, a mãe usa o remédio tanto para tratar a sua própria infecção quanto para proteger o bebê. “A medicação reduz a carga viral, que é a quantidade de vírus circulantes. Quando o procedimento tem sucesso, conseguimos baixar para níveis indetectáveis e quase eliminamos a transmissão para a criança”, explicou.
Primeiro caso no Estado surgiu em 1993
O primeiro caso de HIV detectado em crianças menores de 5 anos no Amazonas foi em 1993, segundo a pediatra infectologista Solange Andrade, da Coordenação Estadual de DST/Aids e Hepatites Virais da Fundação de Medicina Tropical (FDT). Em 1995, três crianças nascidas com HIV foram identificadas pela FDT.
Entre as piores fases para o tratamento das crianças, a médica cita a adaptação delas aos medicamentos de sabor desagradável, administração correta do coquetel e a adolescência dos sopositivos, que não possui conhecimento do vírus.
Na primeira infância, até os 5 anos de idade, as mães possuem dificuldade para que as crianças aceitem o tratamento. Isto porque, embora em dosagens menores, os medicamentos possuem efeitos colaterais e gostos nada agradáveis ao paladar do bebê.
“É uma batalha que esse pequeno guerreiro tem que enfrentar. Além do estigma que a doença possui, o medicamento que essa mãe precisa dar, às vezes tem gosto de gasolina e é preciso ser administrado duas vezes por dia, no mínimo”, disse.
Contar à criança sobre o HIV, é outro obstáculo aos pais e médicos, segundo a infectologista. Os médicos orientam que desde pequeno a família vá orientando o filho quanto à doença.
Geralmente, a revelação ocorre por volta dos 6 anos. “A gente orienta que todos as crianças tenham conhecimento de acordo com a maturidade dela, até para que elas cresçam sabendo e auxiliem no tratamento”, disse.
As famílias que possuem o acompanhamento da Associação de Apoio à Criança com HIV – Casa Vhida, segundo Solange, são acompanhadas por médicos e psicólogos na hora de esclarecer a doença para os filhos. “Nessa orientação, nós passamos, inclusive, como enfrentar o preconceito que apesar de ter melhorado ainda existem crianças que são apontadas na escola”.
Rio Grande do Sul e AM têm as maiores taxas de aids
Em 2013, o ranking geral da taxa de detecção de aids entre as unidades da federação indica que os Estados do Rio Grande do Sul e Amazonas apresentam as maiores taxas, com valores de 41,3 e 37,4 casos para cada 100 mil habitantes.
Conforme o ‘Boletim Epidemiológico HIV/AIDS’ do Ministério da Saúde (MS), o Amazonas está em segundo lugar no coeficiente de mortes, 8,7 óbitos por 100 mil habitantes. Entre 1983 e 2014, segundo o relatório, 2.853 moradores do Amazonas morreram em decorrência da aids.
A Região Norte apresentou o 3º maior percentual de casos notificados em gestantes, em relação ao número estimado – 59,6%. Em 1º lugar ficou o Nordeste, com 70,6% e, em 2º, a Região Sul, 65,7%.
No Brasil, desde 2000 até junho de 2014, foram notificadas 84.558 gestantes infectadas com o HIV, a maioria delas residente na Região Sudeste (41,1%), seguida pelas regiões Sul (31,1%), Nordeste (15,4%), Norte (6,6%) e Centro-Oeste (5,8%).
A tendência de crescimento é avaliada em todos as regiões, exceto no Sudeste, que apresenta, segundo os dados do Ministério da Saúde, uma tendência de queda. Passou de 2,5 para cada mil nascidos vivos em 2004, para 2,1 casos a cada mil nascidos vivos em 2013.
O maior aumento foi na Região Norte (187,5%), que apresentava em 2004 uma taxa de 0,8, passando para 2,3 em 2013.
Isto acontece porque, de acordo com a infectologista da Coordenação Estadual de DST/Aids e Hepatites Virais, da Fundação de Medicina Tropical (FDT), Solange Andrade, o Ministério da Saúde escolheu os Estados do Rio Grande do Sul e do Amazonas, um da Região Norte e o outro da Região Sul, para intensificar os trabalhos de prevenção e detecção do vírus HIV.
Fonte: D24am